Juliana Bohn - Sim, aquela de óculos!
Sei lá o que vou escrever aqui, eu nunca sei o que vem depois de agora!
sábado, 21 de abril de 2012
Gosto de sabão em pó
Já era tarde quando Paulo chegou em casa. Chave atrás da porta, sapato ao lado do sofá, afago no gato antes de entrar no banho.
Tirando a roupa ele pensava no quanto custava chegar em casa todos os dias. Os filhos já adolescentes viviam em seus próprios mundos, enquecendo-se por completo do pai herói que ele ja fora um dia.
Os móveis cansados de seus usos pareceiam pessoas idosas já em seus últimos suspiros. O sofá já tinha o formato do corpo de cada morador. Cada um tinha seu lugar, tudo tinha seu lugar.
A esposa com seu cheiro cansado de sabão em pó. Tudo nela cheirava a sabão em pó...deixou de querer seus beijos quando passou a sentir nele um gosto estranho. Nunca experimentara sabão em pó,mas o beijo da esposa parecia ter este gosto...
Indo para cama nem precisava acender a luz, era só guiar-se pelos móveis e tapetes sempre inertes na mesma posição.
Lá ia ele, deitar na cama e sentir mais uma vez aquele cheiro...deitou-se, mas nada sentiu. Sentou-se, apalpou a cama procurando aquele corpo no qual ele não tocava há séculos...
Acendeu a luz e encontrou um papel, na verdade uma nota fiscal do mercado que a esposa costumava ir. No verso um bilhete dizia:
"Paulo, estou indo embora. Conheci uma pessoa muito especial. O nome dele é Vanderlei e trabalha como caixa no supermercado. Sinto muito, mas ele me conquistou assim que elogiou meu cheiro que você tanto detestava. Adeus. "
Passados alguns meses, sentado em seu lugar do sofá, Paulo lembra com saudade daquele cheiro que suas roupas já não possuem e pensa em ir ao mercado onde Vanderlei trabalha para comprar sabão em pó.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Muito mais que um vinho chileno
Ela nem sabia mais a quanto tempo aquilo vinha acontecendo. Eram olhares cúmplices, quase apaixonados. Em alguns momentos ela sentia-se quase uma presa prestes a ser atacada.Mas logo a conversa era cortada por mais uma piada de um amigo engraçadinho.
Eram assim os encontros daqueles casais há muitos anos.
Desde sempre Silvia soube que os olhares de Márcio significavam muito mais que interesse sobre o assunto do qual ela falava. E quando os olhos dos dois se cruzavam...alguém tinha que fugir, pois caso contrário ambos colocariam seus casamentos a perder.
Nas últimas vezes que se viram tudo estava se intensificando, Silvia até tentava fugir dos encontros de amigos, fingia uma dor de cabeça ou inventava uma hora extra no trabalho. Naquela sexta-feira o grupo iria se reunir num barzinho novo que abrira na cidade. Antes de ir Silvia avisou ao marido que passaria no shopping para comprar um presente para sua mãe que estaria de aniversário nos próximos dias.
Ao chegar ao estacionamento, perdeu algum tempo calçando os sapatos, pois não costuma dirigir com salto alto. Ao tentar sair do carro foi empurrada de volta. Era Marcio colocando em prática tudo que havia sido imaginado durante aqueles anos de uma fingida amizade morna.
Duas horas depois, os dois evitavam se olhar enquanto os amigos degustavam um vinho chileno.
Eram assim os encontros daqueles casais há muitos anos.
Desde sempre Silvia soube que os olhares de Márcio significavam muito mais que interesse sobre o assunto do qual ela falava. E quando os olhos dos dois se cruzavam...alguém tinha que fugir, pois caso contrário ambos colocariam seus casamentos a perder.
Nas últimas vezes que se viram tudo estava se intensificando, Silvia até tentava fugir dos encontros de amigos, fingia uma dor de cabeça ou inventava uma hora extra no trabalho. Naquela sexta-feira o grupo iria se reunir num barzinho novo que abrira na cidade. Antes de ir Silvia avisou ao marido que passaria no shopping para comprar um presente para sua mãe que estaria de aniversário nos próximos dias.
Ao chegar ao estacionamento, perdeu algum tempo calçando os sapatos, pois não costuma dirigir com salto alto. Ao tentar sair do carro foi empurrada de volta. Era Marcio colocando em prática tudo que havia sido imaginado durante aqueles anos de uma fingida amizade morna.
Duas horas depois, os dois evitavam se olhar enquanto os amigos degustavam um vinho chileno.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Maria Louca
Essa história me foi contada há muitos anos atrás quando eu estudava na escola onde trabalho hoje. Dizem que logo que a escola foi construída, lá pelos idos dos anos 60, estudava na escola uma menina chamada Maria. Era uma boa aluna a Maria, quieta, estudiosa. Acontece que perto da escola passa uma rodovia que na época não era muito movimentada, mas mesmo assim muitos veículos passavam por ali. Um dia a menina ia para a escola com seus pais, quando um caminhão apareceu em alta velocidade. A mãe de Maria a empurrou, salvando-a da morte, mas...Maria ficou órfã.
Com o passar do tempo Maria começou a ficar estranha. Batia nos colegas, maltratava animais...dizem que tudo por conta do choque que sofreu ao assistir a morte dos pais. As crianças da escola não queriam nem saber, logo apelidaram Maria: " Maria louca, Maria louca..." era o que mais se ouvia pelos corredores da escola. E ela, para fugir de tudo isso, se escondia no banheiro. Uns diziam que era para chorar, outros dizem que ela escrevia segredos nas paredes...
Numa sexta-feira seguiu-se o ritual de sempre. O apelido de Maria era ouvido até por quem passava na rua e as crianças cruéis, gargalhavam ao redor dela...num círculo ainda mais enlouquecedor. Maria fugiu para seu esconderijo e lá ficou. O tempo passsando, terminou o recreio, ninguém sentiu falta de Maria.
A diretora deu o sinal, todos foram para casa. O portão da escola foi fechado.
Silêncio...solidão...
Ao abrir a porta do banheiro na segunda-feira, o sangue foi manchando o sapato da diretora...somente uma poça de sangue e marcas de unhas nas paredes...
E Maria? Nunca mais foi vista...
Com o passar do tempo Maria começou a ficar estranha. Batia nos colegas, maltratava animais...dizem que tudo por conta do choque que sofreu ao assistir a morte dos pais. As crianças da escola não queriam nem saber, logo apelidaram Maria: " Maria louca, Maria louca..." era o que mais se ouvia pelos corredores da escola. E ela, para fugir de tudo isso, se escondia no banheiro. Uns diziam que era para chorar, outros dizem que ela escrevia segredos nas paredes...
Numa sexta-feira seguiu-se o ritual de sempre. O apelido de Maria era ouvido até por quem passava na rua e as crianças cruéis, gargalhavam ao redor dela...num círculo ainda mais enlouquecedor. Maria fugiu para seu esconderijo e lá ficou. O tempo passsando, terminou o recreio, ninguém sentiu falta de Maria.
A diretora deu o sinal, todos foram para casa. O portão da escola foi fechado.
Silêncio...solidão...
Ao abrir a porta do banheiro na segunda-feira, o sangue foi manchando o sapato da diretora...somente uma poça de sangue e marcas de unhas nas paredes...
E Maria? Nunca mais foi vista...
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Encontros, desencontros, reencontros...
O coração batia acelerado naquela sexta-feira.
Depois de 10 anos ele a veria novamente.
Reencontrar sua turma da escola era para ele o momento certo de falar aquele texto decorado durante os anos que se passaram. Nenhuma namorada séria, somente casos sem sentido que faziam com ele percebesse que sim, já havia amado uma mulher.
" Pri, eu te amo, sempre te amei e quero te dizer isso porque eu vivi esses últimos 10 anos te esperando e hoje, somente hoje, quero que você seja minha" . Ponto.
A mesa do bar era pequena para o tamanho daquela saudade. Cada um contando o que estava fazendo da vida. Alegrias e decepções, todos ali tinham. Os caras de um lado lembrando das partidas de futebol, as meninas do outro falando sobre casamento, planos de ter ou não filhos.
Ele ali, olhando o relógio, vendo o tempo passando. Ela lá, do outro lado da mesa falando sobre algum assunto que ele não conseguia ouvir, só observava os lábios mexendo-se naquele ritmo inesquecível.
Assuntos findados pairou no ar um silêncio. O mais engraçadinho puxa o assunto:
- E os namoros daquela época?
Ali estava a brecha.
- Pri, eu. Ponto.
Do outro lado da mesa Priscila sentencia:
- Vamos falar do presente, quem vive de passado é museu.
Ponto. O texto acabou.
Depois de 10 anos ele a veria novamente.
Reencontrar sua turma da escola era para ele o momento certo de falar aquele texto decorado durante os anos que se passaram. Nenhuma namorada séria, somente casos sem sentido que faziam com ele percebesse que sim, já havia amado uma mulher.
" Pri, eu te amo, sempre te amei e quero te dizer isso porque eu vivi esses últimos 10 anos te esperando e hoje, somente hoje, quero que você seja minha" . Ponto.
A mesa do bar era pequena para o tamanho daquela saudade. Cada um contando o que estava fazendo da vida. Alegrias e decepções, todos ali tinham. Os caras de um lado lembrando das partidas de futebol, as meninas do outro falando sobre casamento, planos de ter ou não filhos.
Ele ali, olhando o relógio, vendo o tempo passando. Ela lá, do outro lado da mesa falando sobre algum assunto que ele não conseguia ouvir, só observava os lábios mexendo-se naquele ritmo inesquecível.
Assuntos findados pairou no ar um silêncio. O mais engraçadinho puxa o assunto:
- E os namoros daquela época?
Ali estava a brecha.
- Pri, eu. Ponto.
Do outro lado da mesa Priscila sentencia:
- Vamos falar do presente, quem vive de passado é museu.
Ponto. O texto acabou.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Queria tanto me casar...
Arranjos de flores. Música. Convidados. Alianças.
Enquanto o padre narrava a passagem bíblica da carta de Paulo ao povo de Coríntios, no fundo da igreja, com pesadas sacolas do hipermercado, Stela lembra do dia de seu quase casamento. Estava linda no vestido de jersei que pertencera a avó e que após uma reforma ficara mais bonito que todos os outros vestidos vistos nas lojas percorridas.
Sabia que seu pai era contra seu casamento. Ainda mais depois da festa de noivado, quando o pai,aos berros, declarou que preferia morrer a vê-la casada com aquele cafajeste. Passado esse episódio, o pai nada mais falou, o que a fez pensar que ele ao menos se conformara.
Quando chegou na porta da igreja, onde o pai a estaria esperando para conduzi-la ao altar, notou a cara de espanto da mãe.
- Mãe, cadê o pai?
A resposta não foi da mãe. A ambulância saindo pela rua lateral era a confirmação do desejo do pai. Preferia estar morto.
Não casou oficialmente, mas depois de 20 anos de convivência, hoje ela sabe que o pai tinha razão.
Enquanto o padre narrava a passagem bíblica da carta de Paulo ao povo de Coríntios, no fundo da igreja, com pesadas sacolas do hipermercado, Stela lembra do dia de seu quase casamento. Estava linda no vestido de jersei que pertencera a avó e que após uma reforma ficara mais bonito que todos os outros vestidos vistos nas lojas percorridas.
Sabia que seu pai era contra seu casamento. Ainda mais depois da festa de noivado, quando o pai,aos berros, declarou que preferia morrer a vê-la casada com aquele cafajeste. Passado esse episódio, o pai nada mais falou, o que a fez pensar que ele ao menos se conformara.
Quando chegou na porta da igreja, onde o pai a estaria esperando para conduzi-la ao altar, notou a cara de espanto da mãe.
- Mãe, cadê o pai?
A resposta não foi da mãe. A ambulância saindo pela rua lateral era a confirmação do desejo do pai. Preferia estar morto.
Não casou oficialmente, mas depois de 20 anos de convivência, hoje ela sabe que o pai tinha razão.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Meus muitos amados leitores...
Quando escrevo, escrevo para que o mundo leia. Muita gente me pergunta porque não mando para alguém que entenda do assunto. Pois é, vamos devagar. Acho que preciso aperfeiçoar muito minha forma de escrita. Gosto do que escrevo e acho que isso já um bom começo. Meu marido também gosta. Minhas colegas de trabalho também. Meu amigo Júlio também.
Para melhorar preciso que me digam se está bom, se pode melhorar, se tem erros de escrita (não estou à salvo por ter me formado em Letras), se poderia ter outro final, ou outro título.
Obrigada, nunca fui tão feliz quanto agora, quando deixo as ideias antes perdidas em minha cabeça, tomarem forma no papel.
Ju
Para melhorar preciso que me digam se está bom, se pode melhorar, se tem erros de escrita (não estou à salvo por ter me formado em Letras), se poderia ter outro final, ou outro título.
Obrigada, nunca fui tão feliz quanto agora, quando deixo as ideias antes perdidas em minha cabeça, tomarem forma no papel.
Ju
Exorcismo
Amigas de muitos anos, elas resolveram viajar depois que uma delas rompeu um relacionamento longo.
- Essa viagem chegou na hora certa, estou mesmo precisando tomar outros ares.
- Terminar um relacionamento nunca é fácil, ainda mais longo. Tu vai ver, vamos encher a cara, beijar na boca e na volta tu não vai nem lembrar quem era o tal de Zeca.
- Tomara.
Sentada no bar do hotel olhando para o copo de vinho vazio ela lembrava do íncio da viagem e das promessas feitas. Bebera, mas não beijara. E o pior, o que mais tinha feito era lembrar do Zeca.
- Ritual do exorcismo do amor. É isso. Li em uma revista e tu vai fazer.
- Como é?
- Escreve uma carta para ele, dizendo tudo que queria dizer e não disse. Coloca em uma garrafa e joga no mar.
- Nossa! Que coisa mais louca.
- Vai tentar?
- Vou. Agora vai para o teu quarto que eu vou para o meu. Quero dormir.
Ao entrar no quarto e avistar sobre o frigobar uma Bic, as palavras começaram a surgir em sua mente.
" Zeca,
Tem tantas coisas que eu não te disse, mas vamos lá, afinal estou te exorcisando de vez.
Obrigada por tudo, pela felicidade que sentimos durante um bom tempo, pelas noites de amor e desejos, pelo nosso filho que herdou teu dom de me fazer sorrir, por ter me ajudado a pagar a faculdade e por tudo de bom que vivemos nesses 12 anos.
Eu sei que nossa discussão não permitiu que eu agradecesse, mas é por isso que estou escrevendo.
Ah! Ainda te amo, mas acho que você já fez o exorcismo. Tive certeza disso quando te vi com aquela loira na academia.
Beijos da sempre sua,
B."
No café da manhã do dia seguinte:
- E aí fez?
- Ahan.
- E deu certo?
- Não sei, mas aquele moreno na outra mesa não para de me olhar.
- Essa viagem chegou na hora certa, estou mesmo precisando tomar outros ares.
- Terminar um relacionamento nunca é fácil, ainda mais longo. Tu vai ver, vamos encher a cara, beijar na boca e na volta tu não vai nem lembrar quem era o tal de Zeca.
- Tomara.
Sentada no bar do hotel olhando para o copo de vinho vazio ela lembrava do íncio da viagem e das promessas feitas. Bebera, mas não beijara. E o pior, o que mais tinha feito era lembrar do Zeca.
- Ritual do exorcismo do amor. É isso. Li em uma revista e tu vai fazer.
- Como é?
- Escreve uma carta para ele, dizendo tudo que queria dizer e não disse. Coloca em uma garrafa e joga no mar.
- Nossa! Que coisa mais louca.
- Vai tentar?
- Vou. Agora vai para o teu quarto que eu vou para o meu. Quero dormir.
Ao entrar no quarto e avistar sobre o frigobar uma Bic, as palavras começaram a surgir em sua mente.
" Zeca,
Tem tantas coisas que eu não te disse, mas vamos lá, afinal estou te exorcisando de vez.
Obrigada por tudo, pela felicidade que sentimos durante um bom tempo, pelas noites de amor e desejos, pelo nosso filho que herdou teu dom de me fazer sorrir, por ter me ajudado a pagar a faculdade e por tudo de bom que vivemos nesses 12 anos.
Eu sei que nossa discussão não permitiu que eu agradecesse, mas é por isso que estou escrevendo.
Ah! Ainda te amo, mas acho que você já fez o exorcismo. Tive certeza disso quando te vi com aquela loira na academia.
Beijos da sempre sua,
B."
No café da manhã do dia seguinte:
- E aí fez?
- Ahan.
- E deu certo?
- Não sei, mas aquele moreno na outra mesa não para de me olhar.
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